Qual o seu conceito de Polícia?

O ex-secretário nacional de segurança pública no governo Fernando Henrique Cardoso, José Vicente da Silva, me disse há alguns anos, durante passagem por Fortaleza, que era preciso entender a diferenciação do conceito de polícia para as classes mais abastadas e as menos favorecidas, para se poder fazer uma reflexão sobre os fenômenos que envolvem a violência e seus efeitos na sociedade. Destacou em princípio, que esses conceitos são bem diferentes, o que acaba impactando na percepção da qualidade da segurança pública nas grandes cidades.

Nesse sentido, José Vicente afirma que a visão de polícia “boa” para os abastados é a de que esse aparato estatal existe para lhe proteger de um inimigo com perfil introjetado culturalmente, que teria como características bem definidas, a pobreza, a cor, e o local em que reside nas grandes cidades. Ou seja, para os ricos, o bandido em potencial seria o pobre, preto e que mora na periferia. A polícia, então, para garantir a segurança desse grupo, não precisaria nem estar próxima, desde que mantivesse as pessoas que se enquadram nesse perfil longe das classes mais favorecidas.

Já para os pobres, a polícia “boa” é aquela em que há proximidade por meio do contato diário, visual mesmo, que permita até estar presente quando da briga entre os vizinhos. A interseção entre esses dois conceitos se daria na medida em que para solucionar os problemas de violência, não importariam muito os meios adotados. Assim, tanto para um estamento social como para o outro, a função da policia é mesmo agir de forma arbitrária, desde que seja em “meu favor”.

Ora, o grande clamor em relação a sensação de insegurança hoje é justamente por conta da ausência do aparato policial para conter os índices de violência., tanto em área pobres como ricas. De todo modo, não parecem ter-se alterado os conceitos sobre a polícia. A questão agora é que os menos favorecidos estão cada vez mais perto dos abastados, sem que o aparato policial consiga contê-los; Já entre os menos favorecidos de há muito perdeu-se a confiança na segurança estatal.

Fragilizada em vista da má formação, dos baixos salários, e da falta de estrutura, a polícia já deu mostras de não estar à altura de lidar com a contradição imposta pela sociedade. O risco disso é que a tendência de interseção entre os dois conceitos venha a se agudizar cada vez mais.

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